
Os pais que assistiram à série Adolescência, da Netflix, ficaram aterrorizados com a história de Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega na escola. A produção escancarou o poder das mídias sociais para disseminar discurso de ódio e misóginos, levando, em alguns casos, que jovens tomem atitudes extremas. “O que fazer se um menino está tendo um comportamento agressivo?”. Para os especialistas, um dos caminhos é ensiná-lo a ter inteligência emocional para lidar com as suas próprias emoções, especialmente frustração, rejeição e insegurança.
“O ambiente digital, que favorece o anonimato e a validação de discursos extremistas, agrava esse cenário. A ausência de empatia, o isolamento, a baixa autoestima e a influência de comunidades tóxicas online também contribuem”, explica Juliana Barbato, psicóloga, especialista em desenvolvimento infantil. Segundo ela, trabalhar a inteligência emocional desde cedo é uma das melhores formas de prevenir esse tipo de comportamento na adolescência e vida adulta.
Como age uma criança emocionalmente inteligente?
Um jovem emocionalmente inteligente consegue se expressar adequadamente e lidar com as emoções sem se organizar. Ele aprenderá a reconhecer quando está com raiva, triste ou frustrado e, gradualmente, vai descobrindo como reagir a esses sentimentos sem machucar a si mesmo ou os outros.
Segundo a pediatra Loretta Campos, os garotos tendem a expressar suas emoções de formas diferentes das meninas. “Desde pequenos, os meninos costumam ser mais cobrados a se mostrar fortes e seguros, enquanto as meninas recebem mais liberdade para demonstrar tristeza ou medo. Isso acaba criando uma diferença no jeito de expressar as emoções, mas não é uma questão biológica — é cultural e pode (e deve) ser desconstruída”, pontua a médica.
Cecilia Gama, pediatra e neonatologista da Clínica Mantelli, reforça que ser emocionalmente inteligente não significa “nunca chorar” ou estar no “controle o tempo todo”. “Pelo contrário. A inteligência emocional está muito mais relacionada à capacidade de nomear os sentimentos, entender de onde eles vêm e buscar formas saudáveis de enfrentamento, com o apoio dos adultos”, a especialista destaca.
Como criar meninos emocionalmente inteligentes?
O primeiro passo para estimular a inteligência emocional entre os meninos é romper com o modelo de masculinidade que incentiva a repressão das emoções. Confira algumas dicas:
- Dê permissão para sentir: ensine que não existe emoção “certa” ou “errada”. Tristeza, raiva, frustração e medo fazem parte da vida — e tudo isso pode ser acolhido com empatia.
- Nomeie as emoções com ele: ajude-o a identificar e nomear o que está sentindo. Por exemplo: “Você está frustrado porque não conseguiu montar o brinquedo sozinho?”. Isso amplia o vocabulário emocional e dá contorno ao sentimento.
- Valide antes de corrigir: antes de dizer que “não foi nada” ou que ele “precisa parar de chorar”, acolha: “Eu entendo que isso te deixou triste, né?”. Quando validamos sentimentos como medo, tristeza e vulnerabilidade, abrimos espaço para o autocontrole se desenvolver com segurança.
- Seja exemplo: crianças aprendem mais pelo que veem do que pelo que escutam. Mostre que você também sente, que às vezes fica irritada, cansada ou emocionada — e que tudo isso é parte do viver.
- Crie espaços seguros para o diálogo: incentive conversas sinceras, sem julgamentos, em que ele possa expressar o que pensa e sente. Isso fortalece o vínculo e a autoestima.
Como ajudar os meninos a nomear as emoções?
“Homem não chora”, “Aguenta firme”… Os meninos costumam ouvir muito esse tipo de frase, prejudicando a sua forma de lidar com os seus sentimentos. A boa notícia é que isso pode ser contornado, especialmente quando se há um esforço para nomear as emoções.
Uma forma eficaz de ajudar os meninos a lidar com os seus sentimentos é oferecer um vocabulário emocional desde a primeira infância.
Em momentos cotidianos, utiliza frases como:
- Você está bravo porque não pode brincar agora?
- Está triste porque teve que se despedir do amigo?
No entanto, evite frases que bloqueiam o processo emocional e ensinam vergonha em vez de expressão:
- Isso é coisa de menina
- Você está chorando por bobagem
- Ele é bravo mesmo, é menino: esse tipo de rótulo normaliza comportamentos agressivos como se fossem naturais ou aceitáveis no universo masculino — em vez de ensinar que a raiva também pode ser acolhida e transformada em ações construtivas.
- Você precisa ser o homenzinho da casa: colocar esse peso sobre os ombros de uma criança é exigir que ela reprima seus medos e emoções em nome de uma falsa maturidade. Isso impede o menino de viver sua infância com leveza e liberdade.
“Ao não saber dizer o que sentem, os meninos podem acabar expressando emoções por meio de comportamentos desorganizados, impulsividade ou até agressividade — que, muitas vezes, são sinais de frustração, medo ou tristeza não nomeados”, alerta a pediatra Cecilia Gama. O uso de recursos lúdicos — livros infantis, jogos de carinhas com emoções, rodas de conversa, desenhos e músicas — é outra estratégia criativa para ajudar os meninos a reconhecerem e expressarem sentimentos com leveza.
Como ensinar os meninos a lidar com frustração e ciúmes sem recorrer à violência ou intimidação?
Quando estão frustrados ou com ciúmes, os meninos tendem a agir com agressividade. Gritam, jogam brinquedos no chão, batem a porta (no caso de adolescentes). Você já deve ter visto a cena em casa. Lidar com esse tipo de situação não é fácil, mas é possível.
- Primeiro, valide o sentimento (“É difícil mesmo quando a gente perde ou vê alguém no nosso lugar”).
- Depois, mostre que existem outras formas de reagir: respirando, pedindo ajuda, conversando. É importante também mostrar que ninguém tem tudo o tempo todo, que sentir ciúmes é natural, mas que não dá direito de agredir ou ameaçar.
Como ensinar os meninos a lidar com a rejeição, principalmente das meninas?
Trabalhe o valor da autoestima: o primeiro passo é desassociar a rejeição da ideia de fracasso pessoal. Ensine que cada pessoa tem suas preferências, e isso não diminui o valor de ninguém. Autoconfiança nasce do autorrespeito, não da validação externa.
Ensine que sentimentos não garantem reciprocidade: desde cedo, os meninos precisam entender que gostar de alguém não significa que esse alguém tem que retribuir. Sentimentos não são obrigatórios — e o “não” do outro deve ser respeitado como algo legítimo.
Modele o respeito nas pequenas coisas: quando o irmão não quer brincar, ou um amigo prefere outra companhia, aproveite para reforçar: “Ele tem o direito de não querer agora, e a gente precisa respeitar”. Esse treino diário prepara o menino para relações mais maduras.
Reforce que “não” é resposta completa: nada justifica insistência, chantagem, birra ou raiva diante de uma recusa. Um “não” precisa ser compreendido como um limite — e limite é cuidado.
Converse sobre empatia e consentimento: use situações cotidianas para ensinar que o outro também sente, escolhe e tem direito de decidir. Isso ajuda a construir meninos que respeitam fronteiras — emocionais e físicas.
Acolha a dor da frustração, mas sem justificar desrespeito: Ele pode chorar, ficar triste, desabafar — e tudo isso deve ser escutado com carinho. Mas nunca como justificativa para desrespeitar o outro.
O que pode acontecer com meninos que não aprendem a lidar com emoções na infância?
Quando os meninos não são ensinados a aprender a reconhecer, nomear e expressar suas emoções de forma saudável, há um risco maior de desenvolver dificuldades emocionais na vida adulta.
Alguns impactos possíveis são:
Reações impulsivas e agressividade: emoções reprimidas, especialmente a raiva e a frustração, tendem a se manifestar em forma de explosões ou comportamentos agressivos — como se fosse a única linguagem emocional permitida.
Dificuldade em estabelecer vínculos afetivos saudáveis: a falta de autoconhecimento emocional pode gerar distanciamento, dificuldade em se abrir ou confiar, e relações marcadas por insegurança ou rigidez emocional.
Problemas de saúde mental: ansiedade, depressão, uso de substâncias e até ideação suicida são mais comuns entre homens que cresceram sem espaço para expressar sua dor emocional. Muitos adoecem em silêncio, sem conseguir pedir ajuda.
Baixa resiliência diante de frustrações: A criança que não aprendeu a lidar com o “não”, com os erros ou com o desconforto pode se tornar um adulto com baixa tolerância à frustração, comprometendo sua autonomia e bem-estar.
Reprodução de padrões tóxicos de masculinidade: O menino que aprende que precisa “aguentar tudo sozinho” ou “nunca demonstrar fraqueza” pode, sem perceber, perpetuar modelos de controle, dureza e afastamento emocional — tanto nas relações familiares quanto sociais.
Segundo a pediatra Cecilia Gama, felizmente, o cérebro infantil é plástico e a inteligência emocional pode ser desenvolvida em qualquer fase da infância — desde que haja vínculo, escuta e ambiente seguro. “Ensinar um menino a lidar com suas emoções não o enfraquece. Pelo contrário: o fortalece de dentro para fora. E forma um adulto mais consciente, empático e capaz de construir relações verdadeiramente humanas”, finaliza.
