
A participação dos avós na criação dos netos pode ser de grande valia tanto para o desenvolvimento das crianças quanto para a rede de apoio dos pais. Porém, ela também pode se tornar uma dor de cabeça dependendo de como os papéis são vividos dentro da família.
Isso porque, enquanto por um lado eles oferecem segurança, afeto, histórias e experiências que enriquecem a infância, por outro, quando extrapolam seus limites, podem gerar conflitos e confusões para os pequenos.
Diante disso, especialistas apontam como equilibrar essa convivência de maneira saudável para todos.
Benefícios da convivência
A presença dos avós pode trazer inúmeros ganhos para a formação da criança. “Os avós podem ser figuras de profundo afeto e segurança para os netos”, afirma a psicóloga clínica infantil Katherine Sorroche, especialista em saúde mental da mulher, puericultura e parentalidade. “Essa convivência traz apoio prático para os pais, vínculo afetivo importante para a criança e a transmissão de histórias, valores e tradições familiares”, completa.
Para os próprios avós, participar da criação dos netos também pode ser uma fonte de sentido e vitalidade.
Juliana Barbato, psicóloga especialista em transtornos do espectro autista e neurodivergência, concorda: “Eles oferecem afeto, segurança emocional e uma fonte rica de histórias e experiências. Muitas vezes, estão mais disponíveis e têm mais paciência para brincar e acolher, o que favorece o desenvolvimento socioemocional da criança.”
Quando os avós compartilham dos mesmos valores da família, também se tornam grandes aliados dos pais na educação, reforçando rotinas e vínculos afetivos saudáveis.
Quando a boa intenção se transforma em excesso
Apesar das vantagens, os especialistas alertam para os riscos de uma participação que ultrapassa os limites. “Quando o envolvimento dos avós ultrapassa certos limites, pode gerar confusão para a criança em relação a quem exerce a autoridade”, aponta Katherine. “Se os avós contradizem constantemente as decisões dos pais, a criança pode internalizar mensagens ambíguas sobre regras, limites e hierarquia familiar — o que prejudica o senso de segurança e consistência que ela precisa para se desenvolver bem.”
Juliana acrescenta que, mesmo com boas intenções, a falta de consenso entre os adultos pode gerar impactos negativos. “Os avós podem acabar minando a autoridade dos pais, seja contradizendo regras, cedendo a todos os pedidos da criança ou superprotegendo. Isso pode gerar confusão emocional, comportamentos desafiadores e dificuldade da criança em lidar com frustrações.”
A profissional destaca ainda que o excesso de indulgência pode atrapalhar o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade da criança.
Para evitar esses problemas, é fundamental que os avós compreendam seu papel como figuras de apoio — e não como protagonistas da educação. “Cabe aos pais definir valores, rotinas e formas de disciplina, e o papel dos avós deve ser o de colaborar, não comandar”, diz Katherine. Juliana reforça: “Eles podem contribuir com cuidado, presença afetiva e ajuda prática, mas devem respeitar as decisões dos pais.”
Como impor limites sem gerar conflitos familiares?
Definir os limites da participação dos avós pode ser um desafio, mas é possível fazer isso com afeto e diálogo. “É fundamental que a conversa sobre limites aconteça com empatia e não no calor de um conflito”, orienta Katherine Sorroche. “Reconhecer a boa intenção e o carinho costuma abrir portas para o diálogo.”
Ela sugere frases como “A gente valoriza muito sua ajuda, e queremos alinhar algumas coisas para que todos fiquem mais tranquilos” para suavizar o tom da conversa. Em alguns casos, combinados por escrito sobre rotinas e regras ajudam a evitar desgastes repetitivos.
Para Juliana Barbato, a chave está em uma comunicação firme e respeitosa. “Os pais precisam comunicar seus valores e decisões com firmeza, mas também com empatia, acolhendo o papel afetivo que os avós desejam exercer.”
Como estratégia, ela sugere envolver os avós em momentos específicos — como contar histórias, ensinar uma receita ou buscar a criança na escola — sem que isso interfira diretamente nas regras da casa.
“Quando cada geração ocupa o seu lugar na relação, a criança cresce com raízes firmes e espaço livre para florescer”, conclui Katherine.
