
Anemoia. Assim é chamado o sentimento agridoce de se encantar e sentir falta de um tempo que não foi o seu. É como se o coração se conectasse a histórias, músicas, imagens e cheiros de uma época que só conhecemos por livros, filmes ou relatos. Talvez você já tenha sentido isso — eu sei que eu já. Basta assistir a um filme sobre a Idade Média, sobre a vida na realeza, e pronto: a imaginação me transporta para lá, junto com uma estranha saudade do que nunca vivi.
É mais fácil idealizarmos
Isso acontece porque, segundo o especialista, tudo começa com a forma como idealizamos certos períodos históricos. “Filmes, livros, fotos e séries frequentemente mostram versões romantizadas do passado, livres das dificuldades da época. Esse filtro cria a sensação de que aquele tempo era mais simples, seguro e acolhedor”, diz. Então, quando o presente se mostra instável e acelerado, essa impressão pode funcionar como um refúgio emocional. “Mesmo sem ter vivido, a pessoa assume aquela época como um lugar de pertencimento”, pontua o especialista. “A cultura pop é um motor da anemoia, porque dá às pessoas um passaporte emocional para essa viagem no tempo”, afirma André.
Mas, o que é, de fato, anemoia?
O termo ainda não aparece nos manuais de psicologia, mas ganhou força após a publicação, em 2021, do livro The Dictionary of Obscure Sorrows, do autor John Koenig, onde ele definiu anemoia como “ansiedade por um tempo que você nunca viveu”. Ao contrário da nostalgia, que se baseia em lembranças reais, a anemoia é uma viagem emocional a um passado alheio. “É como sentir saudade de uma época que nunca foi sua, mas que, de algum jeito, parece pertencer a você”, explica André Barcaui, psicólogo e professor da UFRJ e FGV.
Quando deixa de ser inofensivo
Na maioria das vezes, a anemoia é apenas uma curiosidade afetiva, um jeito de sonhar. Mas o alerta acende quando ela se torna uma fuga constante, levando à rejeição do presente. “O problema é quando o passado vira um esconderijo em vez de uma inspiração. O ideal é usar essas referências como uma ponte, não como uma fuga, trazer o que tem de bom naquele tempo, o que você admira, mas sem perder a realidade que está vivendo”, ressalta o psicólogo.
